O Eremita e a solidão fértil
A diferença entre estar só e abandonar-se a si mesmo.
A diferença entre estar só e abandonar-se a si mesmo.
FOTO · a lanterna do Eremita
O Eremita aparece, no baralho, depois do entusiasmo e antes da virada da roda. É a carta do recuo — não por derrota, mas por necessidade. Segura uma lanterna onde brilha uma estrela: a luz que procura não está lá fora, está na mão de quem a leva.
Há uma solidão que adoece e outra que cura. A primeira é o abandono de si — distrair-se de tudo para não se encontrar. A segunda é o recolhimento escolhido, o silêncio onde finalmente se ouve o que o ruído abafava. O Eremita é o segundo tipo: retira-se para encontrar, não para fugir.
A luz que procuras já vem de dentro. O Eremita só te lembra de a acender.
Nenhum eremita fica para sempre na montanha. O sentido do recolhimento é o que se traz de volta. Depois do silêncio, voltas — não igual, mas mais inteiro, com uma clareza que só a tua própria companhia te podia dar. A solidão fértil mede-se pelo que floresce quando regressas ao mundo.